Paulo Beringhs
 
Pesquisas malandras 
 
Responda rápido: você já foi pesquisado?

Não? Então alegre-se, você é uma pessoa normal!

Anormal será encontrar um cidadão que diga que um dia já esteve frente a frente com um pesquisador de caneta e papel na mão lhe fazendo perguntas do tipo ‘a que programa de TV você assiste?’, ou ‘que rádio você está ouvindo?’ e – mais raro ainda – ‘em quem você vai votar nestas eleições?’

Faça o teste. Pergunte a todas as pessoas que você conhece, a começar pela sua família. Procure achar também em seu ambiente de trabalho ou no papo do bar um felizardo que tenha tido o privilégio de ver de perto este espécime raro que os institutos de pesquisa dizem que colocam nas ruas todos os santos dias.

Por enquanto vou preservar nomes, mas um belo dia perguntei ao dono de um desses institutos quantas pessoas ele entrevistava diariamente em Goiânia para saber a que programas de TV elas haviam assistido.

‘Quinhentas!’, ele me garantiu diante de várias testemunhas igualmente curiosas e até hoje de boa memória.

Com base nessa declaração, faço um convite a você, nobre internauta: vamos fazer as contas juntos?

Então vamos lá! Se são quinhentas pessoas por dia, haveriam de ser 15 mil por mês, correto?

Ao final de um ano, portanto, elas deveriam somar 180 mil.

Como esse instituto funciona em Goiânia há 20 anos, vamos fechar as contas: 20 anos x 180 mil entrevistas/ano= 3 milhões e 600 mil entrevistas, o que equivale ao triplo do número de habitantes da Capital. Isso é fantástico!

Significa portanto que TODOS os moradores de Goiânia devem ter sido entrevistados, em média, ao menos três vezes para declararem suas preferências. E pela lógica você tem de ser um deles!

Não???

Quer dizer que durante todo esse tempo existiu alguém sendo entrevistado em seu lugar seis, nove, doze, quinze, trinta vezes, enquanto você não teve a felicidade de ser entrevistado uma única vez? Uma só que seja?

É, pode ser que você não seja exatamente uma pessoa de sorte, daquelas que além de serem entrevistadas por institutos de pesquisa ainda ganham em bingos, loterias, quermesses – seja lá o que for, mas ganham. Que pena!

Mas pode ser ainda pior: as tais ‘entrevistas’ nem existem. Ou, se existem, são manipuladas de acordo com o interesse de quem paga por elas. Talvez seja por isso que o Congresso não as tenha proibido nesta minirreforma eleitoral aprovada recentemente.
Com isso, elas continuarão a ser feitas e divulgadas até o dia das eleições, na tentativa clara de iludir e induzir o eleitor a votar nos candidatos que sejam donos ou, digamos, ‘parceiros’ de certos veículos de comunicação.

É bem verdade que o eleitor anda ficando mais esperto e até esteja rejeitando essa malandragem, como se viu na última eleição municipal em Goiânia, levando ao descrédito aqueles que costumam se vender ao patrocinador de plantão.

Mas é preciso que o Ministério Público e a Justiça Eleitoral continuem atentos e operantes para evitar essas manobras.

É necessário, também, que a sociedade se mobilize para cobrar do Ministério Público e da Justiça uma investigação aprofundada do submundo dos institutos de pesquisa.

Que os malandros sejam defenestrados e permaneçam apenas os honestos – que são poucos, mas existem!

Ainda voltarei ao tema.










 
 
 
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